História

Poucos representantes das religiões de matriz afro no Brasil possuem uma bibliografia tão rica quanto Djalma de Sousa Santos, o Djalma de Lalú. Seu nascimento já anunciava sua missão com os orixás no plano terrestre. No dia 29 de novembro de 1920, sua mãe carnal sentiu as dores do parto e saiu de casa para pedir socorro. Mas ao chegar numa encruzilhada, a bolsa rompeu e ela deu a luz ali mesmo.

Morador do bairro de Oswaldo Cruz, subúrbio do Rio de Janeiro/RJ, Djalma era jongueiro e bom no ponto amarrado. Serviu à Marinha e se tornou cozinheiro da Polícia Militar. Desde novo frequentava o terreiro de Omolokô antigo de Dona Júlia do Caboclo Rompe Mato, onde Exu Lalú começou a se manifestar, segundo o próprio Djalma contava.

Em 1940, Djalma conheceu o Doté Tata Fomutinho (Antonio Pinto de Oliveira) do Kwe Ceja Nassó. No mesmo ano, Fomutinho recolheu Djalma para ser feito de Oxossi, apesar de Exu Lalú já ter anunciado que era o dono do orí de Djalma. Naquela época, havia o tabu de não se raspar Exu na cabeça de ninguém. Mantendo as tradições, Fomutinho seguiu recolhendo Djalma para ser feito de Gaga Otulu. Entretanto, no dia da saída, quem proferiu o orunkó foi Laalù: "IGBARALONÃ!".

Tal fato gerou um grande burburinho nos círculos do Candomblé repercutindo até na Bahia na Roça do Ventura (Cejá Hundé), sua matriz de axé. Com isso, a relação de Djalma com Fomutinho ficou extremamente abalada.

Sentindo-se desamparado por seu doté, Djalma se muda para a Bahia numa jornada em busca do conhecimento que lhe foi negado. Inicialmente foi acolhido por Bandanguame no Terreiro do Bantu Mansu Keke, Bate Folha. Também morou cinco anos na casa de João da Goméia em Salvador, de quem se tornou grande amigo. Até que certo dia tomou coragem e rumou para o Kwe Cejá Hundé. Chegando lá foi recebido pelas mais velhas da roça que lhe recepcionaram com o seguinte questionamento: "Então quer dizer que agora estão fazendo Exu no Rio de Janeiro? ". No mesmo dia, após dar o rum, Exu Lalú se aproximava das pessoas presentes e lhes contava detalhes sobre a vida pessoal de cada uma delas. Só parou quando reconheceram a veracidade do orixá ali presente, lhe implorando: "Chega Exu! Não precisa falar mais nada!".

A partir daí, Djalma ganhou o apoio de sua casa matriz e de Sinhá Abali (Ogorinsi Lufame), segunda Gaiakú a governar a Roça do Ventura. Anos mais tarde, já com sua roça aberta, Djalma de Lalú levou Sinhá Abali para visitar o Rio de Janeiro, ficando hospedada em sua residência em Olinda.

Inicialmente Djalma abriu sua roça na Rua Manoel Reis em Nilópolis. Até que Lalú lhe avisou em sonho para pegar todo o seu dinheiro e apostar no macaco no Jogo do Bicho. Djalma assim o fez: juntou suas economias e foi de Olinda a Nova Iguaçu apostando em todas as bancas. E no dia seguinte ele havia acertado na cabeça, quebrando as bancas de Jogo do Bicho da cidade. Tanto que os banqueiros tiveram que se reunir para lhe pagar a alta quantia. Desta forma, Djalma adquiriu a propriedade da Rua Batista das Neves em Olinda, que se tornou seu barracão definitivo (Kwe Ceji Lonã) e sua residência. Também mandou construir uma vila de casas para o povo do santo, a "Vila São Lalu" e adquiriu outras casas no entorno do barracão para alojar seus filhos de santo.

A fama de Djalma de Lalú correu por todo o candomblé e ao longo de sua vida espiritual iniciou mais de 500 filhos de santo. Sempre com pioneirismo, Djalma de Lalú e Procópio de Ogun foram os primeiros homens a vestirem seus orixás para "dar rum" na Casa Branca do Engenho Velho, com aval de Mãe Massi.

Os anos se passaram e seu doté, Tata Fomutinho, adoeceu. Djalma de Lalú não mediu esforços para lhe amparar, provando que o ressentimento do passado já não existia mais. Em 1966, Tata Fomutinho veio a falecer na casa de Djalma de Lalú, local onde morou nos seus últimos dias de vida.

Com o falecimento de seu doté, Djalma de Lalú "entregou sua cabeça" a Secundina Lopes da Anunciação, a Mãe Dila de Obaluae do Àse Òpó Àfònjá (Parque Santana/RJ) por quem tinha grande estima. Desta forma, o Kwe Ceji Lonã passou a ser Nagô Vodun.

Portador de diabetes, Djalma de Lalú veio a falecer no dia 12/03/1992 com insuficiência respiratória. Deixou um filho carnal (Osmar) e centenas de filhos de santo saudosos. Por não haver um consenso sobre sua sucessão, o Kwe Ceji Lonã fechou as portas.